Vestindo jaquetas de emoções no gaélico escocês
À medida que um novo passo da minha jornada se aproxima em direção à Escócia no ano que vem, eu avanço nos estudos de gaélico escocês, idioma que tentei estudar quando eu tinha por volta dos meus 18-20 anos de idade, antes de entrar na minha graduação em Psicologia na federal. Aproximadamente 15 anos depois, deslizo por entre as páginas ensinantes de gaélico, fóruns de falantes e em lições do Duolingo. Há 15 anos, não havia material o suficiente disponível, apenas alguns pdfs que eu julgava confusos, os quais eu havia baixado em um grupo do Facebook de galícios, irlandeses e escoceses que ainda falam gaélico.
Manter uma língua viva não é fácil, ainda mais depois das proibições da coroa britânica, como foi o caso da Escócia após derrota nas guerras de independência. Culloden foi o marco não só do símbolo de força, resistência e de amor àquela terra, mas também do apagamento da cultura dos povos celtas e norte-gaélicos, das culturas das highlands. Eu poderia falar muitas e muitas coisas sobre isso, mas nenhuma delas transmitiria o sentimento que é falar na Escócia.
Estudar um idioma é conhecer a cultura e as características de um tempo, um espaço e, por que não, como se compreende o que se sente? Tenho conhecido expressões interessantes que desnudam a cultura escocesa através do tempo, mas também tenho me surpreendido com como as emoções e os sentimentos eram comunicados, acima de tudo, sentidos. Para além de uma expressividade visceral e sincera, os gaélicos pareciam compreender que as emoções são passageiras; que elas não são definitivas. A raiva, a tristeza, o cansaço ou a alegria que sinto agora eu estou vestindo como se fosse uma jaqueta, mas pode ser que, daqui a pouco, eu esteja sem a jaqueta, mas vestindo uma camiseta mais simples. Digo isso porque percebi que a construção frasal para indicar que estou vestindo uma capa é semelhante para indicar que estou preocupado, apreensivo. Veja:
Tha cota orm.
(Eu estou vestindo uma capa.) Tradução literal: A capa está em mim.
Tha dragh orm.
(Eu estou preocupado.) Tradução literal: A preocupação está em mim.
Inclusive, quando quero dizer que sinto algo por alguém, é como se eu falasse que a capa que estou vestindo eu coloco sobre alguém, por exemplo:
Tha gaol agam ort.
(Eu te amo) Nota-se "agam", que é um possessivo que diz que "gaol" (amor) é o sentimento que tenho. "ort" é um pronome prepositivo que se usa para "vestir/usar/sentir", indica algo como "em você".
Outros exemplos?
Tha gaol aig Màiri air Beathag.
(Mari ama Beth) Em que a construção frasal basicamente nos diz que o amor de Mari está em/sobre/na Beth.
Tha an t-acras orm.
(Eu estou com fome/I am hungry). Literalmente, "A fome está em mim".
Tha an fhearg oirre.
(Ela está com raiva). Literalmente, "A raiva está nela".
Tha an deoch air Iain.
(Ian está bêbado). Literalmente, "A bebida está em Ian".
Curioso, não? Entendo que essa maneira de dizer o que se sente ressalta a efemeridade das nossas emoções e permite expressar algumas ideias mais complexas como sentimentos de um jeito até mesmo poético. Retrata, basicamente, a comunicação de um período na história. É um outro jeito de perceber as coisas.
Em vista disso, vale apontar aqui que o gaélico escocês e a língua escocesa voltaram a ser idiomas oficiais do país nessa semana, juntamente do inglês britânico, segundo notícias recentes, o que é um grande movimento em direção à valorização da cultura escocesa. Em 2020, estudos apontavam que os idiomas gaélico escocês e a língua escocesa anglo-saxã corriam o risco de desaparecer. O número de falantes estava caindo em esquecimento. Lembro que li e ouvi em blogs escoceses que há múltiplas iniciativas que visam resgatar o idioma e a cultura, uma identidade nacional que remonta a história de perseverança, coragem e resistência da Escócia.
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