quinta-feira, 25 de junho de 2026

Vivendo o incrível

Já tem quase 3 meses desde a minha jornada pela Escócia. A importância dessa aventura foi ficando cada vez mais transparente. A importância, na verdade, já era sabida, mas as razões, nem tanto. 

Vivi coisas que compartilhei com os meus íntimos, porque não tem valido a pena contar aos céticos. Não por serem céticos, mas porque desdenham. Se não desdenhassem, não me importaria de contar. Enfim, isso é o menos importante agora. Essa jornada se torna cada vez mais interessante e, também, surreal. Mas muito real. Minha jornada de volta à egrégora espiritual da qual eu pertenço, o contato com Odin e com minhas outras vidas e com outras conexões de alma, tais como amigos e familiares, espíritos já conhecidos por mim, tem tornado tudo muito especial. Tenho aprendido coisas novas sobre o mundo espiritual, confirmado outras e me vislumbrado com a perfeição da geometria da existência, da vida. 

Em contato com as minhas outras vidas/encarnações, como preferirem chamar, tenho aprendido cada vez mais sobre mim, sobre meus talentos, habilidades e desafios. Como pai Odin havia me dito, a ida para a Escócia é um divisor de águas na minha presente vida e na jornada do meu espírito. Tem ficado mais e mais evidente um trauma na lida com autoridade, esta sendo um gatilho que me oprime, me apequena e me coloca em lugares de morte. Seja em situações da vida, coisas e pessoas que passam por mim. Nesse sentido, pessoas e muitas outras coisas ficaram para trás. Para poder fazer isso, eu precisei aprender o meu valor, meus limites e validar a mim mesmo. Dar a mim a autoridade sobre a minha própria vida. Uma gerência que, em outras eras, havia me sido tirada. 

Do outro lado, retirei tudo e todos aqueles que me drenavam, abusavam de mim, das coisas que eu tinha que ofertar. Daqueles que juravam me amar, mas que estavam indisponíveis para uma conversa e parecia até mesmo um sacrifício me ver, vir me visitar. Depositavam uma culpabilização em qualquer outra coisa. Se eu tenho que me movimentar em sua direção para que nossa relação aconteça, eu me retiro. Podemos ter 1o e até mesmo 20 anos de relação, que isso já não mais importa. Durante esses tantos anos, tive que consolidar o conhecimento de que amor não é incondicional. Aqui, nem me refiro a namoros e coisas do tipo, mas a outras relações, principalmente, que foram com quais eu mais me decepcionei. 

Ainda falando sobre o abuso de poder e de autoridade, me refiro às relações de poder nas relações, nas coisas mais cotidianas. No desaparecer seguido de uma busca constante de mim, de aconselhamento e cuidado meu que eu não recebo de volta. A não reciprocidade. Invalidação, competição, silenciamento, ausência, invasão de limites... sempre com justificativas das mais sofridas possíveis. Estamos todos vivendo a experiência humana. Sofrimento não se mede e não se compara.

A autoridade está no desdém, no deboche, no comentário que desconsidera e subestima, no jogar no escuro da estante para depois procurar e usar quando precisar. Está no que não é consentido e no não reconhecimento de quem somos, de nossas capacidades, potências e dificuldades. Autoridade ignora e despreza, exceto quando precisa usar. O que não era sincero, sólido e recíproco não se faz mais presente.

Deixei tudo e todo mundo para trás. Dito isso, tenho passado por momentos muito transformadores e de reset na minha vida, que me levaram a ir embora da cidade de Porto Alegre. Todo esse processo tem sido bastante desafiador, porém me permitido respirar e pegar uma distância para revisitar os sentidos das coisas. O que não floriu mais já não era mais para ser. E tem o que caiu de podre, mesmo, lançado para bem longe. Assim, abriu espaço para outras relações, mais fortalecidas e em harmonia com o meu coração. Descobri habilidades que achei que jamais teria. Minha relação com meus deuses, deusas e com minhas entidades só se fortaleceram cada vez mais, em especial por hoje eu saber quem são, saber seus nomes e não mais precisar da roupagem de nomes e fundamentos vazios que aprendi na época dos terreiros com dirigentes trambiqueiros. Tudo isso do passado já parece tão, mas tão tão distante. E que bom! Foram dois anos que mais pareceram dois séculos de distância. Eu já sou outro. 

Na Escócia, segui o caminho das margaridas, as quais me deram pistas até um local muito especial que revelou segredos dos quais eu não devo esquecer. Ficarão em mim para sempre. Os dois corvos de Odin, como ele mesmo havia me dito, me acompanharam em todos os lugares que estive. Olhavam em meus olhos, grasnavam e me conduziam. Em alguns momentos, apenas pareciam me cumprimentar e dizer que estavam ali, fazendo companhia no trajeto. Visitei lugares que trouxeram memórias vívidas de uma das minhas outras encarnações. Memórias de momentos experienciados, incluindo emoções, sentimentos, pensamentos, informações locais, sobre pessoas e situações que vivi naquele momento lembrado. Senti e obtive informações complexas de coisas que eu não teria como saber simplesmente "do nada". Percorri caminhos que eu, há muito, havia percorrido. Lembrei do trajeto, lembrei das paisagens, lembrei da sensação que era o vento e o frio, a sensação do pisar naquela grama, as preocupações e angústias. Pensamentos muito específicos. Informações geográficas, climáticas e culturais que eu, enquanto Vincent, total desconhecia. Por isso que eu digo que, se eu contar, quase ninguém acredita. Encontrei, também, um amigo daquela vida. Vocês vão acreditar se eu disser que ele me reconheceu? Aproveitamos a companhia um do outro ao máximo como nos bons e velhos tempos. Eu havia, inclusive, sonhado com ele meses antes da viagem. Foi uma grande surpresa ter conhecido pessoalmente uma pessoa que eu achava que só existia em meus sonhos e nas mirações de Ayahuasca.

Eu pude ir até o local em que Odin apresentou a minha alma logo após o nascimento. Subi a montanha, fui muito alto em um dia de chuva, frio e vento absurdo. Senti a vibração daquela altura e como a energia dali me abraçava. Fui testemunho de mim mesmo. Ri, chorei de emoção, me senti tão grato a Odin por tudo. Ter que ir embora da Escócia deixou um gosto amargo na boca, o sabor da saudade que queima em meu peito e escorre nos olhos. Deixou o desejo de voltar outra vez e um ardor diferente de viver a vida. 


sexta-feira, 20 de março de 2026

Cansado demais.

 

Eu tô cansado. Tô cansado de ter que trabalhar todos os dias para ter acesso ao mínimo. Tô cansado de me sentir desvalorizado pelo mercado de trabalho. Tô cansado de ser desvalorizado e ser tratado mal, em alguns casos, no meu trabalho. Tô cansado de ter que sempre dar limites. Tô cansado de receber projeções de gente mal-resolvida. Tô cansado de gente com autoestima do tamanho de um grão-de-arroz. Tô cansado de gente em surto religioso. Tô cansado de gente que lida com as próprias frustrações culpabilizando o outro. Tô cansado de gente que terceiriza responsabilidades aos outros. Tô cansado de gente fudida. Tô cansado de gente que invalida o sentimento do outro. Tô cansado de gente que descarta a humanidade do outro. Tô cansado de gente com complexo de inferioridade e que acha que todo mundo é arrogante. Tô cansado de gente que trata animais e plantas como seres inferiores e menos importantes que humanos. Tô cansado de viver em um apartamento, em uma cidade urbana. Tô cansado de ver asfalto, muro e pouca vegetação. Tô cansado de não ouvir os cantos dos pássaros, sentir a brisa das árvores e de não poder pisar em terra livre de agrotóxico. Tô cansado dos serviços públicos ofertados com má qualidade. Tô cansado da profissão. Tô cansado da psicologia. Tô cansado para começar algo novo. Tô cansado também de aturar gente sem noção na rua e que maltrata bicho. Tô cansado do cara que bota o cachorro dele para brigar com a minha na grade do prédio em que eu moro – eu já soquei uma barra de ferro nele (no homem) e gritei para o bairro inteiro ouvir. Agora, ele só passa e cospe no chão quando me vê e troca de calçada. Tô cansado de gente imbecil. Tô cansado de pensamento pequeno e simplista. Tô cansado de gente que demanda demais dos outros e não sabe se retirar quando não tá bom. Tô cansado de ver gente e bicho passando fome. Tô cansado de ver gente passando necessidade. Tô cansado de passar sufoco também. Tô cansado de sentir que não existe muita perspectiva de carreira na profissão – tentando compreender que é algo do momento. Tô cansado de viver em moldes civilizatórios. Tô cansado do sistema monetário e da existência de dinheiro – mas preciso de dinheiro, pode mandar o PIX. Tô cansado de racismo. Tô cansado de transfobia. Tô cansado de gente abusiva e sem limite. Tô cansado da banalização da violência em sociedade e dos tantos feminicídios e transfeminicídios. Tô cansado de ver gente trans sendo bode expiatório. Tô cansado de guerras e da não compreensão de que há espaço para todo mundo nesse planeta. Tô cansado da crise climática. Tô cansado do verão, do calor e de não poder ir à praia. Tô cansado de sempre ter que me qualificar ainda mais e nunca parecer o suficiente, afinal, meu currículo ainda assim não satisfaz expectativas mercadológicas, porque um psicólogo não sabe programar Python. Tô cansado dessa cidade. Tô cansado de Porto Alegre. Tô cansado da inflação e do preço das coisas. Tudo muito caro. Tô cansado de não ter muito tempo para o que realmente importa na vida. Tô cansado da minha doença crônica intestinal, da fadiga, dos dias de dor, de como pesa no corpo e só um outro doente crônico entende. Tô cansado das instabilidades da vida. Tô cansado dos crimes cibernéticos, dos crimes de guerra e de ver a Palestina e seu povo exterminados. Tô cansado de chorar, impotente, pelos palestinos. Tô cansado daquelas cobranças de amar cultura latinoamericana. More... Eu sou romani. O que vocês chamam de cigano. A cultura na qual eu foi criado é outra, é ROMANI e não latinoamericana. Latinoamerica não é só geografia: é cultura, é território, é povo, é identidade. Não invalide e não cobre que um romani ignore sua própria cultura, sua família e suas tradições. Tô cansado, também, do colonialismo da latinoamérica: aqui não se fala espanhol, nem português! É brasileiro, é tupi e outros idiomas indígenas! Isso aqui é Brasil, porque se fosse Abya Yala, tudo seria diferente. Tô cansado do Brasil também. Não quero ressignificar nada. Amo as terras de Abya Yala e a proposta de povo e de vida dela.  Tô cansado de julgamentos. Cada um faz e gosta do que lhe interessar. Cada um tem que viver o que fizer sentido para si. E PONTO. TÔ CANSADO JÁ DISSO. Tô cansado, quero sumir no mundo, embarcar em um avião e ir para longe. É o que farei, inclusive, daqui a poucos dias: vou me refugiar onde minha alma e meu coração descansa.

 

Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado. Tô cansado.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Across the universe

 As coisas aqui vão bem. Descobertas seguem, mudanças diversas na vida em curso. Apesar disso, coisas para se preocupar como todo mundo. O fim do doutorado está batendo à porta já. Tenho data para a defesa da tese agora em março. A viagem se aproxima cada vez mais e a minha ansiedade sobe proporcionalmente. Apesar disso, me sinto pronto. O que essa nova etapa me reserva? Tenho aprendido a me tranquilizar com o que não é visível aos olhos, com o que é prometido e sentido. Superando desafios antigos, o que tem tornado o caminhar mais leve. 

 


 

sábado, 27 de dezembro de 2025

Lanternlight - Nightwish


 

I'm in the light and flood
I'm in the four winds
I'm the waves shaping pebbles flawless gems
I'm the snow on your palm 

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Vestindo jaquetas de emoções no gaélico escocês

À medida que um novo passo da minha jornada se aproxima em direção à Escócia no ano que vem, eu avanço nos estudos de gaélico escocês, idioma que tentei estudar quando eu tinha por volta dos meus 18-20 anos de idade, antes de entrar na minha graduação em Psicologia na federal. Aproximadamente 15 anos depois, deslizo por entre as páginas ensinantes de gaélico, fóruns de falantes e em lições do Duolingo. Há 15 anos, não havia material o suficiente disponível, apenas alguns pdfs que eu julgava confusos, os quais eu havia baixado em um grupo do Facebook de galícios, irlandeses e escoceses que ainda falam gaélico. 

Manter uma língua viva não é fácil, ainda mais depois das proibições da coroa britânica, como foi o caso da Escócia após derrota nas guerras de independência. Culloden foi o marco não só do símbolo de força, resistência e de amor àquela terra, mas também do apagamento da cultura dos povos celtas e norte-gaélicos, das culturas das highlands. Eu poderia falar muitas e muitas coisas sobre isso, mas nenhuma delas transmitiria o sentimento que é falar na Escócia.

Estudar um idioma é conhecer a cultura e as características de um tempo, um espaço e, por que não, como se compreende o que se sente? Tenho conhecido expressões interessantes que desnudam a cultura escocesa através do tempo, mas também tenho me surpreendido com como as emoções e os sentimentos eram comunicados, acima de tudo, sentidos. Para além de uma expressividade visceral e sincera, os gaélicos pareciam compreender que as emoções são passageiras; que elas não são definitivas. A raiva, a tristeza, o cansaço ou a alegria que sinto agora eu estou vestindo como se fosse uma jaqueta, mas pode ser que, daqui a pouco, eu esteja sem a jaqueta, mas vestindo uma camiseta mais simples. Digo isso porque percebi que a construção frasal para indicar que estou vestindo uma capa é semelhante para indicar que estou preocupado, apreensivo. Veja:


Tha cota orm. 

(Eu estou vestindo uma capa.) Tradução literal: A capa está em mim.


Tha dragh orm.

(Eu estou preocupado.) Tradução literal: A preocupação está em mim.


Inclusive, quando quero dizer que sinto algo por alguém, é como se eu falasse que a capa que estou vestindo eu coloco sobre alguém, por exemplo:

Tha gaol agam ort. 

(Eu te amo) Nota-se "agam", que é um possessivo que diz que "gaol" (amor) é o sentimento que tenho. "ort" é um pronome prepositivo que se usa para "vestir/usar/sentir", indica algo como "em você". 


Outros exemplos?

Tha gaol aig Màiri air Beathag. 

(Mari ama Beth) Em que a construção frasal basicamente nos diz que o amor de Mari está em/sobre/na Beth. 


Tha an t-acras orm. 

(Eu estou com fome/I am hungry). Literalmente, "A fome está em mim".


Tha an fhearg oirre.

(Ela está com raiva). Literalmente, "A raiva está nela".


Tha an deoch air Iain.

(Ian está bêbado). Literalmente, "A bebida está em Ian". 


Curioso, não? Entendo que essa maneira de dizer o que se sente ressalta a efemeridade das nossas emoções e permite expressar algumas ideias mais complexas como sentimentos de um jeito até mesmo poético. Retrata, basicamente, a comunicação de um período na história. É um outro jeito de perceber as coisas.


Em vista disso, vale apontar aqui que o gaélico escocês e a língua escocesa voltaram a ser idiomas oficiais do país nessa semana, juntamente do inglês britânico, segundo notícias recentes, o que é um grande movimento em direção à valorização da cultura escocesa. Em 2020, estudos apontavam que os idiomas gaélico escocês e a língua escocesa anglo-saxã corriam o risco de desaparecer. O número de falantes estava caindo em esquecimento. Lembro que li e ouvi em blogs escoceses que há múltiplas iniciativas que visam resgatar o idioma e a cultura, uma identidade nacional que remonta a história de perseverança, coragem e resistência da Escócia. 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Sobre Odin e chupins

 Dias tranquilos, uma vela acesa, um incenso de ervas queimando, meus móveis na cor preta e a companhia da minha cachorra, a Cacau. Livros à mesa, lápis, caneta, marcador de texto, folhas em branco e o aroma de um café preto açucarado ou a doçura de um hidromel. Natureza, verde, pés no chão. Céu nublado, vento frio. Esses são os dias que eu gosto e que eu quero para mim. Não consigo desejar qualquer outra coisa, além disso, de viagens, de viver da minha escrita e da pesquisa.

Foto: Arquivo Pessoal.


É a minha vida ideal: poder desfrutar das coisas bonitas e naturais desse mundo, sem ter que me preocupar com dinheiro e sem me estressar com outras pessoas. Viver tudo isso ao lado das minhas amizades, companheiros de vidas e é só isso. Comer bem. Sonho, projeto, vislumbro. Fecho os olhos, com os pés descalços, sentindo o chão e o vento que entra pela minha sacada. Sinto o cheiro do incenso e o calor da vela. Gosto de hidromel na boca, mãos com as palmas para cima, saudando Midgard, reverenciando os meus outros eus, Odin e a natureza linda que me circula. A possibilidade de sentir cada aroma, cada sabor, cada textura. Sensação de paz. De olhos fechados, não posso ver o Sol, mas posso senti-lo.

Os últimos dias desde o meu aniversário têm sido corridos, pois preciso finalizar alguns capítulos da minha tese, a qual está prestes a ser finalizada e defendida. Em breve, doutor, mas sem qualquer vaidade. É só uma etapa material do caminho nítido que estou traçando. A presença do Alfadhir, como sempre, nada sutil. Ele faz questão de mostrar o que está fazendo, quando está próximo e o que quer que eu entenda. Já escutei de outros filhos e filhas de Odin o mesmo. Sempre amoroso, cuidadoso e divertido (eu amo as piadocas desse véio!).

Dentro da tarefa que cumpriremos juntos, a qual anunciarei somente ano que vem durante a minha viagem, Odin tem feito coisas impressionantes na minha vida, tal como me direcionar a lugares certos, a pessoas certas para contatos e negociações também certos. Pessoas e convites têm chegado a mim, tudo conectado à nossa tarefa, ao nosso propósito. O meu deus não desenha nada em linhas tortas: ele é pragmático, certeiro e sábio. Literalmente “dito e feito”. Sabe o caminho e me apresenta como uma possibilidade, portanto eu devo escolher se quero ou não o que chega até mim. Tenho topado todas as oportunidades e tem sido uma experiência surpreendente. As coisas estão se materializando e fundamentando o que está por vir. Tenho comentado com amigos mais próximos os feitos de Odin e as novidades que chegam e eu acho que sempre acabamos chocados com tudo, embora não surpresos. Afinal, tem acontecido tudo o que ele disse (nas mirações da medicina sagrada) que faria por mim. Vez ou outra, escuto seus sussurros ao vento ou escuto-o através do meu hugr.

Eu o chamei no parágrafo acima de “meu deus”, mas ele costuma me corrigir: “deus não! Seu pai!”. Não poderia concordar mais, mas me referi a deus para conectar com outras ideias. Odin é o pai que lutou por mim, que me defendeu e me resgatou de volta para ele. É o pai que sempre teve orgulho de mim e que não tem vergonha de me apresentar ao mundo. Não há palavras que definam a figura paterna que ele é. Se alguém me dissesse o que estava por vir, há alguns anos, eu jamais acreditaria. Aqui no Brasil não tem corvo, nunca vi, mas fui acompanhado por eles em meus sonhos. Fisicamente, chupins costumavam pousar na janela do meu quarto quando eu era adolescente. Corvos, graúnas, chupins e outros tipos de espécie de pássaros negros rondavam não só o meu imaginário, mas marcavam presença em momentos bem simbólicos. Algumas vezes, acreditem ou não, traziam notícias de falecimento com data e nome, em meus sonhos. Pensava em Odin e me perguntava: “será?”. Eu era uma criança triste, deprimida e silenciada. Por circunstâncias diversas, sentia-me aprisionado. Vivia pela promessa de liberdade e encontrava paz, respiro e acolhida em Odin, na magia e em sentimentos os quais eu não sabia decifrar, mas que hoje eu já sei nomear. Minha esperança era eu mesmo.

Pesquisando em canal de busca para saber mais sobre chupins, encontrei referências que o nomeiam como uma praga de plantação de arroz e como um pássaro parasita que rouba o ninho de outras aves. Outro diz que é uma ave trapaceira, tal como Odin é conhecido em algumas histórias. Dizem que ele é um trickster, uma figura trapaceira e fofoqueira. Acho que não conheci o Odin trapaceiro, mas acho que posso dizer que conheço o lado fofoqueiro, de tanta coisa que ele já me contou sobre outras pessoas. Ele faz as notícias percorrerem o mundo. Sei, também, que ele gosta de uma boa charada, algumas das quais só ele ri depois de contar.

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Nasci mais uma vez

 Ontem, dia 27 de outubro, foi o meu 33º aniversário, pelo menos no calendário gregoriano. Poderia ter feito uma terceira cerimônia de Ayahuasca, uma extra, conforme dito por Odin na minha segunda consagração da medicina sagrada na madrugada entre o dia 16 e 17, mas me contentei em ainda aproveitar tudo o que vivenciei naquela madrugada.

Nesse meu aniversário, assim como vários outros, eu não fiz festa, não quis fazer grandes comemorações, porém preferi celebrar, coisa que não fazia há bastante tempo também. Escolhi celebrar de uma forma mais consciente, nutrindo amor por mim, pela vida, pelos meus outros fractais e pelo meu Eu Superior, pela nossa saga. Ao conhecer os meus outros eus, as minhas outras vidas, eu amei cada um deles e, assim, descobri o amor por mim mesmo. Não há presente maior do que esse: de fato, sentir esse amor próprio. Pela primeira vez, esse amor foi tão sincero, genuíno, verdadeiro. Eu entendi.

Somos filhos de Samhain, gestados em sete noites, por sete anos, em uma grande pira de um Alfabót. Essa foi uma consagração a qual é bastante privada e não conseguiria compartilhar tantas informações incríveis que vivi e descobri sobre mim, sobre os meus outros eus e pessoas a minha volta. Outras informações, eu posso comunicar muito brevemente. Meu Zé Pelintra, o qual se trata de meu falecido avô nesta vida, já subiu. Agora, outro assume como frenteiro. Sou grato ao Zé, vulgo meu vô Alfredo, por tudo o que fez por mim e pelo amor que nutrimos por tantas e tantas vidas. Eu o eximi de todos os compromissos espirituais que ele sentia que tinha comigo e por todos os sacrifícios que fez por mim para que eu pudesse viver mais uma e última vez.

Eu e meus outros eus somos 7. São sete caboclos, sete estrelas, sete coroas de aloés. São sete guerreiros, sete flechadas, sete maneiras de se curar.

O Vincent é o último e o que sela e conclui a nossa saga de experiências neste mundo material. Vincent, assim como o seu nome fala por si só, é vencedor. Como dito por Odin, ele é a promessa de amor ancestral. E esta promessa de amor ancestral foi comemorada, a partir da celebração de todas as infâncias, de todas as minhas vidas. Um momento lindo, único, muito emocional que vivi na última consagração. Ao fim de tantas descobertas inscríveis, de contatos com as minhas fractais, de momentos de amor, carinho, respeito e de cura das dores da minha vida como o norueguês pescador e viking, chegou um momento muito especial. Eu vi o nascimento do meu Eu Superior. Depois da minha alma ter sido gestada na egrégora espiritual asgardina, Freya/Frigga me entregou, recém-nascido, ao colo de Odin, o qual me envolveu com muito amor em seus braços, em seu manto acinzentado. Ali, na beira de um precipício, sob os raios de sol, uma nuvem rosa perolada surgiu ao meu redor, com runas desenhadas no ar. Odin cochichava para mim. Ao mostrar essa cena, ele diz que ele me encantou com o feitiço mais poderoso desse universo inteiro. E eu entendi que era o seu amor.

Imagem gerada por IA, tentando remontar algo daquela cena.


“Assim como eu te trouxe ao mundo e te levei a ele, te apresentei com muito orgulho. Dessa vez, não seria diferente. Filho, eu te levo e te apresento ao mundo mais uma vez. Hoje, tu nasce para a vida.” Assim, presenciei o meu nascimento naquela madrugada. 

Semanas atrás, ele havia pedido para eu comprar um bracelete, o qual chegou com uma semana de antecedência do previsto, justamente horas antes da consagração da medicina. O momento final da medicina foi a consagração do bracelete por Odin, em que eu me senti consagrado, celebrado, coroado e batizado. Reconhecido. Odin levantou o bracelete ao alto. “Esse bracelete é para que tu te lembre de quem tu é; é uma promessa de amor. O nosso amor de pai e de filho. Tu é a promessa de liberdade dos teus ancestrais. Uma promessa de amor. Onde tu for, essa promessa te acompanhará. Onde tu for, eu te acompanharei. Onde tu for, estaremos todos contigo”. Cenas foram me sendo apresentadas. Eu, na ilha de Skye, na Escócia, segurando o bracelete no topo de uma rocha. A energia asgardina e de Odin vibrando forte. O amor de Odin preenchendo o meu coração. E, de repente, ao meu lado, os outros seis.


Foto: Arquivo Pessoal.


sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Uma promessa de amor

Envolveu-me em seu manto cinza e me ninou. Em silêncio, me encantava com palavras inaudíveis, me envolvendo com runas que eram marcadas no ar em uma nuvem rosa perolada. O encantamento mais poderoso de todo o universo.

"Assim como eu te trouxe ao mundo, orgulhosamente, eu te apresentei a ele. E é assim que eu te apresento novamente a esse mundo. Hoje, tu nasce para o mundo, nasce para a vida."

O gestar ancestral no fogo. Uma vida por uma vida, o sacrifício de um amor ancestral, o perdão de um avô, a promessa de cura de todos os ancestrais. O sonho de liberdade de Bjorn. A promessa de dias melhores. Em tempos de colher tudo o que foi plantado e ver minha terra, mais uma vez, livre.

Foto: Arquivo pessoal.


"O bracelete representa teu nascimento, a celebração da tua vida. Uma promessa de amor. Que tu sempre possa lembrar de quem é. Por onde for, eu estarei contigo, sempre estaremos conectados. O amor de um pai e de um filho, consagrado no feitiço mais poderoso que existe."

Te amo e te sou grato, meu pai Odin. Eu jamais imaginaria que estaria vivendo tudo isso. 





sábado, 6 de setembro de 2025

Coração Valente

 

Na vastidão de campos verdes, quase que sem fim, cavalgava junto de sua égua baia. A luz solar de um meio de tarde refletia na pelagem do animal, ressaltando suas cores, o brilho e os músculos das patas. No rosto do homem, um semblante leve, alegre, refletindo os olhos claros e o tom acobreado dos cabelos. Vestia um tartan em tons que combinavam vermelho e verde. A camisa branca tinha as mangas dobradas até próximo aos cotovelos. A viagem parecia de dias, mas a energia era de quem tinha descansado por muito mais tempo. Tinha dormido ou era o coração leve de quem nutre esperança e a chama de toda a sua glória?

Conhecia todos aqueles campos e todas aquelas pessoas. Tinha um amor grande por aquelas terras e um ardor pela liberdade delas. De horas atrás, ares com resquício de uma luta solitária contra um grupo de soldados da coroa, enviados para fazer a ronda daqueles campos.

Profundo respeito pelas pessoas que fui é o que hoje eu sinto. Conhecendo quem fui e quem sou me permite honrar a mim mesmo, meus ancestrais, e respeitar a minha trajetória devidamente. Isso só foi possível nesta proporção a partir da vivência da Ayahuasca. Parece que ficou mais nítido, mais consciente. Fez mais sentido, como se eu tivesse entendido o que isso realmente significa de um jeito menos fragmentado.

Olho uma foto da criança que fui. Sinto falta dos cabelos crespos e cacheados. Não me dói mais o que não foi. Hoje, vejo a força e a potência que aquela criança fez para sobreviver. Não é o ideal, nenhuma criança deveria passar por isso. Mãozinhas acariciando a Bolinha, uma fox paulistinha; bermuda vermelha, camisetinha branca, rostinho redondo e um brilho no olhar... distante. Sonhava com terras que nunca conhecera. Penso: será que aquele eu pescador que navegava as gélidas águas nos fjordes ou aquele escocês poderia imaginar que essa criança carregaria toda aquela áurea de coragem, força, imponência e luta?


Foto: Arquivo Pessoal.

Como bem dito por Odin, minha bandeira principal é a luta para ser quem se é e pela liberdade. A partir de conexões e da inspiração, é na liberdade que minha alma encontra descanso e jubilo. Hoje, se eu pudesse, eu encontraria a criança que eu fui, o adolescente e o jovem adulto de algum tempo atrás e diria a ele que tudo o que seu coração sempre sentiu era verdade.




sábado, 2 de agosto de 2025

Vidas inteiras em duas horas

Primeiramente, quero dizer que estamos indo para duas semanas desde o falecimento de Ozzy Osbourne e eu ainda estou sentindo o luto. Ozzy foi uma figura muito importante na minha trajetória, aqui especificamente falando dele e de sua carreira solo, a qual eu sou um ávido fã. Seu carisma, sua trajetória e seu trabalho foram uma das companhias nos momentos mais difíceis. Músicas como "Back On Earth", "Time" e "Life Won't Wait", embora mais recentes - hoje, nem tanto -, estiveram comigo nos dias mais obscuros; agarrei-me a elas e a cada palavra de motivação que Ozzy tinha a dizer. O Príncipe das Trevas sempre soube que as trevas e a luz são uma coisa só.
 
Esse post é uma singela homenagem a ele. Embora eu tenha me programado para falar o motivo de eu ir para a Escócia, hoje eu entendo por qual razão esse post foi sendo adiado, enquanto eu tinhas outras coisas a falar primeiro neste blog. Aconteceu algo que mudou minha vida completamente. Podemos chamar de "divisor de águas", embora eu não seja Maomé e não seja islâmico. Divisor de águas como um rio que se separa e corre por outros caminhos e a direção, talvez, bem mais definida.
 
Minha vida mudou em duas horas. Foi tudo o que eu precisava para rever essa vida inteira, curar inseguranças e ver a minha importância e a do que faço. Eu entendi meu propósito, eu chorei me sentindo liberto de coisas que não faziam parte de mim. Levei uma vida muito dura, mas a lição dessas duas horas foi amorosa e acolhedora. E tudo graças a ele, a Odin. No dia 16/07 foi a minha primeira consagração de Ayahuasca. A medicina das florestas é incrível. Em um sonho, no mês anterior, eu havia sido direcionado por Odin. Como um bom oniromancer, chamei ele algumas vezes para conversar em sonhos, até que um dia ele me respondeu, talvez de saco cheio. Ele disse que tinha coisas para me dizer que o mundo dos sonhos, talvez, não comportaria e que eu precisava de algo um pouco mais profundo. E foi aí que ele me indicou a Ayahuasca. "Não vai sentir os efeitos comuns da medicina, não vai vomitar, não vai ter diarreia, nem passar mal... você está preparado e com toda a estrutura para dar conta desse momento. Mas se prepare..." disse ele. E me mostrou cagando o maior e mais sólido, bonito e consistente tolete. Te juro. Nada foi diferente do que ele me avisou, mas eu posso garantir para vocês que a experiência superou todas as minhas expectativas.
 
Eu não vi mandalas, mas ele me explicou como elas eram formadas. Encarei meus medos, senti um deles respirar ao pé do meu ouvido, mas me mantive firme, pois sabia que nada poderia me atingir e que eu estava protegido. Muito bem protegido. Eu vi coisas e tive acesso a informações que, se eu contar, ninguém vai acreditar. E tá tudo bem, ninguém precisa acreditar. Odin estava lá e disse que, para começar, ele queria me mostrar algumas coisas e eu o segui. Estávamos caminhando na bifrost, a ponte arco-íris que leva a Asgard, protegida por Heimdall. A beleza dessa ponte é absurda. Estávamos nos aproximando de uma estrutura gigantesca, realmente GIGANTESCA, em uma proporção em que eu me sentia menor que uma mosca, muito menor que um grão de arroz. Talvez, uma pulga. Só o portão já era uma coisa estrondosa, brilhava em um ouro branco clarinho. Ele colocou a mão no portão e pediu para eu me aproximar. Eu me aproximei e ele me mostrou um raio de luz iluminando o portão de Asgard. "Esse aqui é meu reino, meu lar e o seu também. Toda luz que toca nesse ouro é refletida em todas as cores do arco-íris. Por que acha que coloquei todas as simbologias relativas ao arco-íris espalhadas ao longo da tua vida?". Eu comecei a chorar. "É para te lembrar de onde vem. Quero te lembrar quem tu realmente é. Tu acha mesmo que é uma pessoa tão desimportante, tão sem valor e pequenino assim como se sente?". Ele disse de uma forma contestadora, mas não menos amorosa. Meus olhos vertiam em lágrimas, porque ele havia pegado a minha maior dor, a qual tento me desvencilhar tem muito tempo. Os detalhes da arquitetura desse portão eram escandinavos, lindos, lindos, lindos. Uma riqueza de detalhes e de texturas que eu não teria simplesmente como tirar de um mero conceito eurocêntrico e branco de "inconsciente".

Fonte: Pinterest.


E foi aí que ele disse "deixa eu te mostrar uma coisa". Ele me mostrou uma vida passada minha nos fiordes noruegueses. Estava eu, em um barquinho, um homem de estatura mediana, pele bronzeada e cabelos loiros acinzentados, meio apagados talvez pela maresia. Vestia uma roupa muito simples, parecia um saco de batatas. Já dava para saber que se tratava de uma pessoa comum. Eu era um dos pescadores do meu vilarejo. Estava em um barquinho simples de pesca, com algumas ferramentas de pesca, caixas e bacias para depositar os peixes. Eu remava em um rio entre os fiordes, lindos, cheios de neve. Havia uma brisa leve, gelada. Eu podia sentir a temperatura gelada emanar das águas. Nessa visão, ouvi a voz de Odin me dizer que eu sempre fui uma pessoa simples, comum. Não era rei, não era cheio de riquezas materiais, nem uma figura famosa ou aparentemente comum. Mas que eu sempre fui grande nas minhas ideias, nos meus objetivos e nas minhas palavras. Eu inspirava todos que conhecia. E foi aí que a cena foi mudando, e ele mostrou um drakkar viking. Estávamos a-viking! Eu e outros moradores do vilarejo, nos direcionando para uma jornada de saques e invasões. Estávamos animados, ansiosos... Ele me disse que, por onde eu andei, eu levei seu nome e o de Asgard, a energia de inspiração e de força de seu reino. Ele me mostrou os detalhes do casco do drakkar e as cores do arco-íris reluzindo de uma forma simbólica para ilustrar o que ele queria dizer. Foi então que saltamos dessa linha do tempo e voltei ao portão de Asgard, em que estava de pé junto a ele. Odin me permitiu tocar no portão e sentir sua vibração e apreciar os detalhes de sua arquitetura. Deu uma risadinha. O véio era bem orgulhoso... com razão.
 
Ele me mostrou, à distância, o grande salão. Me explicou como funcionava Valhalla: noções muito mais complexas do que as entendidas e espalhadas pelo tempo. Não me permitiu entrar, porque tinha coisas que eu não poderia ver naquele momento por ainda estar vivo. Levou-me a uma grande fonte de luz que, segundo ele, produzia toda a vitalidade. Era uma fonte de vida, com uma luz muito forte, difícil de manter os olhos abertos. Parecia uma grande fonte com um pombo gigantesco jorrando essa luz perolada... Comecei a ser banhado por essa luz. Senti muitas coisas indo embora de dentro de mim. Senti meu corpo e minha alma leves. E foi aí que ele me apresentou Lúcifer como essa grande fonte de energia, de vitalidade, que poderia dar forma a qualquer coisa. Ele me mostrou como manipulava essa energia para criar uma árvore e como cada folhinha era construída. Odin me explicou com detalhes sobre o funcionamento do mundo, do universo e o motivo de tudo isso aqui existir: o mero acaso que, hoje, tem todo um ordenamento, um engenho, como um grande computador. Simplesmente aconteceu, agora a gente - e eles também - que segure a onda! Me explicou sobre "anomalias" na matrix, me mostrou a grande aranha criadora de todo o universo que tece as teias do passado, do presente e do futuro de uma forma completamente desordenada, caótica. Não existe imperfeição: até mesmo o caos e os erros eram perfeitos, pois tudo estava de acordo com o que foi codificado para ser. Eis que ouço, telepaticamente, a aranha me fitar com seus inúmeros olhinhos e dizer entre risadinhas: "todo mundo rezando para um deus... mal sabem que estão rezando para uma aranha". E ria. Eu a xinguei e ri junto.

Em algum nível bem mais abaixo, as nornas teciam as teias da aranha e lapidavam cada instante, cada história e cada trajetória. E muitas egrégoras espirituais, não só a galera de Asgard, mas de outras religiões, lapidando tudo como se fossem engenheiros.
Eu vi como uma alma era produzida.
Eu vi o propósito da minha existência.
Eu vi o meu Eu Superior.
Eu vi o motivo de eu fazer o que faço.
Eu vi o propósito do meu trabalho e que a Psicologia é apenas um dos meios de cumprir com os objetivos pelos quais minha alma foi codificada.
Coisas me foram explicadas que eu fui proibido de falar aqui ou até mesmo de compartilhar com outras pessoas. Permanecem em segredo e permanecerão.
Eu vi coisas e pessoas que estão na minha vida hoje e que são meramente passageiras. Vi minha família carnal sendo apenas passageira - era a primeira vez que a gente se encontrava, apenas por uma breve conexão.
Vi vidas anteriores da minha mãe e da minha cachorra Cacau. Era como se eu pudesse acessar qualquer informação sobre tudo e todos. Eu vi prazos de validade, eu vi a idade e como algumas pessoas morreriam. Eu vi segredos de pessoas que conheço. Eu vi que os animais pertencem às Forças da Natureza, as quais estão acima dos deuses e que compõem a lei de tudo.
Eu pude encontrar meu falecido pai, o qual me disse que a única coisa que faltava para ele poder seguir adiante era me pedir perdão por tudo o que havia me feito. Ele me contou o motivo de ter me rejeitado e me revelou um segredo sobre si mesmo. Eu o perdoei e ele expandiu-se em uma luz azul, dizendo que agora poderia seguir e reencarnar. Detalhe sobre isso: na manhã seguinte à minha consagração da Ayahuasca, minha mãe me disse que sonhou com ele se despedindo dela e que seguiria em frente. Ela nem sabia ainda do que eu tinha experienciado naquela noite.
 
Seguindo...
 
Eu vi a minha primeira vida nesse planeta, enquanto um aborígene. Odin me trouxe informações importantes acerca do que eu experienciei naquela vida. E eu vi, depois, um dos pontos altos dessa experiência: a minha vida enquanto um jacobita nas highlands escocesas. Mais uma vez, eu era apenas uma pessoa comum: era um agricultor que, assim como em todas as minhas outras vidas, era convocado para a guerra. Sempre fui um guerreiro, defendendo ideais de liberdade. Um drengr de Odin. Não posso trazer detalhes dessa vida, mas foi a mais elucidativa a respeito de dores e traumas que carrego na vida atual. Ele me mostrou detalhes dessa história, meu nome (não quis me dar o sobrenome, pena), amigos que estiveram ao meu lado e que estão presentes na vida atual; me mostrou a razão de eu nunca dar certo com ninguém, amorosamente falando, e porque a traição e a desconfiança me assombram. A minha morte se deu em uma grande emboscada. Foi uma morte cruel e muito violenta. Foi uma morte que fragmentou minha alma, a minha identidade e me apequenou... e isso nos leva aos primeiros minutos de experiência na Força desta medicina das florestas.
 
Odin disse que a minha ida à Escócia era para me conectar com meu passado, com a minha ancestralidade e para eu concluir a história. Eu preciso selar a história da vida anterior e a da minha alma, para assim a minha alma poder descansar e retornar para sua origem. Esta é a minha última viagem aqui. Preciso vingar a morte que fragmentou a minha alma. Para isso, costurando com a minha crise profissional, ele me indicou o que devo fazer. Essa viagem para a Escócia ganha um propósito muito maior. Assim que eu terminar o meu doutorado, darei início a esse novo projeto, o qual ainda não posso revelar para vocês. E viajarei para a Escócia não só para me conectar comigo mesmo e com a minha ancestralidade, mas também para trabalhar neste projeto. Estou ansioso para chegar o momento de compartilhar com vocês sobre o que se trata!
 
Mas enfim, eu ainda não falei para vocês como eu cheguei na Escócia antes de toda essa vivência na primeira cerimônia da Ayahuasca. Durante a minha vida toda, eu tive sonhos com esse lugar tão distante das terras brasileiras. Os sonhos eram tão reais, que eu podia sentir como se estivesse lá de fato. Cada cenário, cada paisagem, cada lugar... Quando criança, chorava de saudades de um lugar que eu não conhecia, mas que minha alma reconhecia como lar. Muitos sinais foram depositados na minha trajetória quanto a isso, mas cresci sem saber que lugar era esse.
 
Ano passado, antes do fim de um relacionamento, sonhei que estava lá. Sonhei que meu falecido pai havia me levado e ele me disse "a partir de hoje, esse é teu destino: a Escócia. Tu tem que ir para lá para saber de ti, da tua ancestralidade e concretizar algo importante; teu futuro está lá". Comecei a investigar isso, a partir daquele dia. Vi que tinha uma série chamada "Outlander" e comecei a assistir. Chorei a cada episódio, porque via as paisagens as quais sonhei ao longo da minha vida sem nunca ter pisado lá (pelo menos não nessa vida ainda kkkk). Depois disso, passei a uma busca desenfreada por documentos e outros registros tanto da família por parte de pai quanto de mãe, caçando arquivos e informações acerca das minhas origens familiares na vida presente.
 
Enfim... Foram as duas horas mais intensas e divisoras de água da minha vida. Ainda me encontro reflexivo, pensando nas repercussões disso tudo que me foi dito. Penso na minha trajetória, nas relações interpessoais, nos medos que tive e em todas as inseguranças que me amedrontavam. A medicina da floresta mudou e salvou a minha vida. Muita coisa mudou e tantas outras ficaram para trás. Foi uma experiência espiritual intensa e muito forte e que trouxe mudanças profundas e maior consciência. Seria um equívoco medíocre reduzir o que vivi naquela noite a um mero conceito branco e eurocêntrico de "inconsciente". Se o inconsciente for uma conexão com o mundo espiritual, com o nosso Eu Superior e um caminho de encontro com a Força, quem sabe? Mas não acho que a sociedade esteja preparada para rever sua materialidade dessa forma. Muitas pessoas pirariam se vissem as coisas que eu vi e descobrissem as coisas que me foram explicadas.

 
Eu sou eternamente grato à Força, às forças da natureza e a odin. Sou eternamente grato à mestra Lisiane e à Fernanda, as duas que me permitiram viver uma cerimônia de Ayahuasca com tanto cuidado e responsabilidade. Amo vocês! Obrigado!

sexta-feira, 11 de julho de 2025

Drengr de Odin

 

Primeiramente, quero dizer que eu não esperava que o blog atingisse essa quantidade toda de visualizações e mensagens no tanto por DM do Instagram, quanto pelo WhatsApp. Não estava esperando essa repercussão, nem mesmo que as pessoas fossem ler. Achei que seria mais um blog que eu crio com uma escrita que só eu leio. Fico agradecido por cada visualização e por cada mensagem que recebi. Isso me motiva bastante! Aliás, se quiserem, sintam-se à vontade para comentar na seção de comentários deste post.


Acho que posso afirmar que o post inicial foi arbóreo, pois deixou vários galhos de assuntos que eu quero escrever aqui. Fica difícil de escolher por onde começar! Já sei também que está todo mundo ansioso para saber sobre a viagem para a Escócia. Mas, para chegar lá, eu preciso desenvolver um outro assunto aqui que é a base de tudo, para que vocês entendam o que essa viagem para a Alba (Escócia, em gaélico escocês) significa: o título desse blog.


Odin's drengr é uma frase que traz um misto do inglês com o norueguês. “Drengr”, nas sociedades escandinavas medievais, era um título dado a guerreiros, a pessoas reconhecidas pelo caráter, pela conduta, pela coragem. Era, também, uma forma carinhosa e amistosa de cumprimento ao outro, reconhecendo neste as características supracitadas. Hoje, “drengr” é utilizado entre pessoas do paganismo nórdico. É comum, também, o uso de “broder”, “bróðir” e outras formas para chamar, afetuosamente, alguém de “irmão”, que são mais informais em seu trato.


Vou abrir aqui um ramo que é digno de uma futura postagem: hoje, faço parte, novamente, do paganismo nórdico. Quem me conhece, sabe que sou de família romani, fui criado dentro da tradição familiar, no clan d'Os Areia. Nosso barô romani (o chefe) era o famoso – e já falecido – Amaro Gomes Pereira, meu tio-avô. Meu avô, o Alfredo, era um grande bruxo e feiticeiro conhecido por todo o vale do Rio Pardo, viveu o paganismo e pouco pude aprender com ele, visto que faleceu em meu aniversário de dois anos de idade, pelo que me recordo. Entretanto, nossos caminhos se cruzaram de outras formas e hoje, ainda que não de forma carnal, conto com sua companhia, com seus cuidados e aprendo bastante com ele. Mas voltando ao assunto, mesmo sendo romani consanguíneo, eu vivenciei as religiões de matriz africana durante 30 anos da minha vida, com algumas pausas e muitos conflitos internos. Faz uns dois anos, aproximadamente, que eu tomei a decisão de não mais fazer parte, com a autorização e o incentivo dos meus Orixás regentes. Muitos motivos me fizeram tomar essa decisão. Para além das tantas frustrações, já estava sendo comunicado tanto pelos meus Orixás, quanto por outras egrégoras que me acompanham de que aquele não era meu caminho, embora eu o tenha percorrrido por muitos e muitos anos da minha vida. Meu carinho e meu respeito pelos Orixás sempre foram grandes, mas isso nunca significou minha permanência na religião. Afeto nenhum é suficiente quando as práticas religiosas não fazem sentido, quando os espaços de terreiro que eu frequentei eram esvaziados em fundamentos e em sentido. Foram tomados por lógicas embranquecidas, cisnormativas e neoliberais. Foram tomados por desfiles de moda, de ego e pela exploração financeira de pessoas em vulnerabilidade que só queriam ser amparadas, fortalecidas. Não eram espaços coletivos de fato, mas de interesse. Não estou generalizando, mas bons lugares não são uma regra, ao meu ver. Não tinha afeto, não tinha aprendizagem, não tinha comprometimento social, nem político... tudo vazio.


Amaro Areia, meu tio-avô. Fonte: Jornal Folha do Mate.

O caminho de lá para cá foi longo, tortuoso, difícil, mas tive todo o apoio e orientação constante das egrégoras espirituais que me acompanham. Vamos dar um salto maior na narrativa para focar no meu caminho no paganismo. Foi um caminho que já me era conhecido. Enquanto romani, fui criado com um olhar atento e importante para a espiritualidade. Tinha muita curiosidade e queria aprender cada vez mais. E foi nessa impulso que eu conheci outras vertentes espirituais e religiosas, na pré-adolescência, pelas quais me senti muito mais conectado. O paganismo celta e o nórdico eram os que me atraíam intensamente. Mais tarde, descobri vários motivos para isso ter acontecido. Explicarei na postagem que fala das razões para visitar a Escócia.


Nesse processo de recalcular rota, estive bastante introspectivo – mais ainda, eu sei -, distanciado, reavaliando valores e sentidos. Sigo sendo o Eremita. Reavaliei muitas coisas na minha vida, quebrei com vícios e retomei hábitos mais saudáveis, os quais estava há tempos tentando e não conseguia. Eu era tomado por constante desânimo e drenagem vital. Fui me dando conta que Odin estava ali, nos detalhes mais bobos e nos mais duros e intensos, assim como esteve em muitos momentos do meu passado, me guiando e mostrando que eu jamais deveria baixar a cabeça para nada, nem ninguém. Afinal, eu sou um drengr. Nasci para ser drengr. Vários pontos foram ligados, sinais de vários anos para cá, os quais eu não conseguia entender, hoje são transparentes para mim. Tive sonhos, sentia presenças e fui me reconectando a ele. Percebi que muitos símbolos nos aproximavam. Minhas histórias e as sagas dele, interesses e até mesmo defeitos.


Foi no paganismo nórdico que eu encontrei irmãs, irmãos sinceros, incentivadores, pessoas que realmente estavam dispostas a ensinar, a trazer conhecimento aos recém-chegados. Conheci pessoas que, para além do espiritual e da prática religiosa, se tornaram amigas, motivando e incentivando a mim e a outros irmãos e irmãs em seus objetivos pessoais. Encontrei pessoas que procuravam tornar a comunidade pagã um espaço de cuidado, conhecimento e de desenvolvimento pessoal. E o mais legal de tudo: um espaço seguro para pessoas com deficiência, LGBTI+, negras, indígenas, mulheres (todas elas), entre outros. Destaco o querido amigo Mikél, britânico de Nottingham, que foi luz e conforto em diversos momentos. Foi no paganismo nórdico que eu vivi o verdadeiro sentido de coletividade, de família, de comunidade, em que todos levantam por um. Óbvio que o paganismo, assim como muitas outras religiosidades, também foi apropriado por malfeitores e criminosos, nazistas, os quais se utilizam de simbologias das culturas e tradições nórdicas para pregar absurdos racistas, higienistas, transfóbicos e supremacistas. Mas estes são expulsos da comunidade pagã; são rejeitados e proibidos dentro da comunidade.


Mas, afinal, como que eu sou um drengr, se não quero guerra? O bom drengr não sente medo? Nunca vi um ser humano não sentir medo. Bom, da matriz africana, eu guardo com muito amor o meu pai de cabeça, rei do meu Orí, meu pai Ogum. Tenho muitos pais espirituais, tive nenhum carnal – pelo menos, não um que se fizesse presente. Fui forjado no fogo e no aço de Ogum, feito para a luta e para a guerra. Pelo jeito, forjado pelos Aesir também. Minha vida foi uma guerra desde os primeiros anos de vida, desde a minha concepção. Enfrentei batalhas perigosas quando recém-nascido, quando criança e quando adolescente. Quando adulto, também. Enfrentei coisas incomuns que, por muito pouco, minha vida terrena não foi encerrada. Eu me lembro de cada momento como se fosse ontem. Foram lutas constantes pela minha vida, isso sem falar no processo de descoberta da minha própria transgeneridade e a busca pela minha identidade.

Meses antes de eu nascer, uma outra mulher romani disse para a minha mãe que um de seus filhos a nascer era filho seria um guerreiro, filho de São Jorge. Será que faz sentido o que eu tô dizendo aqui? Vão conectando os pontos aí! São Jorge, inclusive, para quem não sabe, é o padroeiro da Inglaterra.


Apesar de ter sido forjado um drengr, fui ensinado que é preciso ser munido de conhecimento e de uma visão estratégica. Não se compra qualquer guerra e não se faz parte de qualquer batalha. Não se deve ser imprudente, nem ter a guerra como primeira opção. Tem guerras que são silenciosas e a gente luta nas sombras – a própria existência é um testemunho de luta. Além disso, tem batalhas que não se pode ir sozinho, pois são missões suicidas. Aprendi pelo caminho mais difícil.


Ogum, em um sonho, se despediu de mim. Disse que dele, eu já aprendi tudo o que eu precisava e que agora era para eu ir para o mundo. Deu as costas, e saiu andando e rindo. Ele havia me deixado com sete espadas na mão. Foram sete sonhos diferentes, cada um com uma nova espada, como uma lembrança de que uma lição importante foi aprendida e que novas habilidades hoje fazem parte do meu repertório.


Meu grande pai Lúcifer, a partir de sua sabedoria e de sua luz, reaparece para iluminar meus caminhos e o meu coração, trazendo nitidez de pensamento. Me protegeu e me trouxe livramentos importantes. Ele me dizia que eu não precisava estar em religião nenhuma, menos ainda em templos, só se eu quisesse, desde que consciente das lógicas mercadológicas e exploratórias que muitos desses lugares religiosos repercutem. Seu amor por mim sempre foi infinito. As pessoas veem “o inimigo” em Lúcifer ou um “anjo caído”; eu vejo amor. Lúcifer e Hécate me acompanhavam nas encruzilhadas, iluminando meu caminho com suas tochas.


E foi nessa caminhada que eu me reaproximei de Odin. Certo dia, caminhando na estrada incerta e nebulosa, ele reapareceu como uma brisa suave, apontando os caminhos. Silenciosamente, postou-se ao meu lado e apontou a Gungnir. Os corvos Huginn (Pensamento) e Munnin (Memória), que tanto apareciam em meus sonhos e visões quando criança, pairavam no céu. Parecia até que afastavam as nuvens. Mais adiante, outras batalhas se aproximaram, mas vou dizer que lutar ao lado de Odin, tendo sua orientação, é sem igual. Não me sentia tão forte assim há anos. Fui surpreendido por forças que estavam adormecidas em mim há bastante tempo e que a ausência delas me causava bastante constrangimento e autocobranças. Mas elas estavam ali, só não tinham as condições necessárias para serem potencializadas. Não estavam dormidas, mas silenciadas.


Fonte: Pinterest.


Vão dizer que é coisa de doido – se for, nem ligo, doideira é a mais pura sanidade -, mas eu ouvia sussurros que me diziam para me conectar com as runas. “Aprenda runas e tudo vai fazer sentido”. E foi o que fiz, ano passado, e fez sentido, de fato. Foi onde os véus começaram a cair. Descobri que meu falecido avô, o Alfredo, também jogava. Viajava de vila em vila, casa em casa, jogando as runas e atendendo os mais necessitados com chás e ervas medicinais, magias que só ele conhecia. Odin só foi digno das runas depois de ter se enforcado na Yggdrasil (a árvore da vida, com nove reinos), ficando pendurado por nove dias com sua lança atravessada no corpo. Tem nove dias que duram anos eternos, aqui em Midgard (mundo dos humanos, um dos nove reinos da Yggdrasil).


Peço desculpas por muitas coisas estarem nas entrelinhas, mas elas são privadas. Sou reservado e qualquer exposição me constrange. Me sinto um idiota toda vez que falo sobre mim, por isso que esse blog é um exercício necessário. Na próxima postagem, satisfaço a curiosidade quanto à Escócia! Quero trazer o sonho com meu falecido pai que mudou o rumo da minha vida ano passado e que me leva à Alba.


terça-feira, 1 de julho de 2025

Não quero mais militar

 

Sim, esse é o título. E é o meu desejo também.

São anos militando, posso dizer que se completaram 16 anos de militância. Não exatamente, porque faz alguns anos que eu decidi não mais militar, mas seguir como um ativista. As duas coisas têm diferença. Não entrarei nos pormenores, mas a luta era bastante solitária, esgotante e, dessa forma, é adoecedor. Fico perdido na contagem de todas as vezes que adoeci e que, inclusive, tive um burnout que quase custou a minha vida algumas vezes. Com certeza, não foram as primeiras vezes em que minha vida esteve em risco – essa luta contra a morte data desde a infância. Acho que todos nós lutamos pela vida; alguns mais, outros menos, mas todo dia é um dia a mais.    

Houve um momento em que precisei optar por lutar só pelos meus semelhantes, o que tornou o trabalho menos exaustivo. Ainda assim, a gente encontra desafios, por exemplo, pessoas que não conseguem ver a minha humanidade e confundem o meu papel com o do Estado. Tem pessoas que acham que é uma obrigação ou uma responsabilidade minha fazer qualquer coisa por elas, quando eu sou só uma pessoa comum como qualquer outra e que também precisa de suporte. A diferença é que eu tendo a me responsabilizar muito por tudo o que eu quero e preciso. Não acredito que o outro deva agir como eu e pelas mesmas razões, as quais não serão explicitadas – sou muito privado e discreto, como podem perceber -, foi só um breve comentário sobre como prefiro lidar com as coisas. De qualquer modo, eu cansei de não ser visto como gente, seja pelo mundo lá fora, seja pelos meus próprios semelhantes. Não quero generalizar, porque encontrei muitas pessoas incríveis nessa caminhada. Mas eu preciso focar no meu ganha pão e nos meus sonhos. Preciso correr atrás das coisas que eu acabei negligenciando em prol do coletivo. Foquei demais no coletivo e abdiquei de mim, fiz errado, e foi onde eu mais adoeci. Não fui ensinado a pensar em mim e a me entender, isso foi algo que tive que descobrir durante o caminho. Foi difícil.

Hoje, não quero mais discutir com a oposição, com o opressor. Não quero mudar ninguém, não quero fazer com que o outro mude de ideia, salvo aqueles que tenham o desejo de mudar e que gostariam de trocar uma ideia. Não quero mais fazer pelo meu próximo tão diretamente como estava fazendo; quero aliviar a minha barra. Que alívio! Enquanto militante, comumente eu era incentivado a galgar patamares maiores, participar de eventos e organizações nacional e internacionalmente conhecidas. Ambição é uma coisa tão relativa e maleável, que eu não concordo com a ambição neoliberal e capitalista. Não sou competitivo nesse sentido, tenho certeza que tem espaço para todo mundo nesse vasto mundo. Apesar disso, fui incentivado a querer muito mais e a conquistar grandes coisas, como se eu tivesse que ser uma referência a todas as outras pessoas trans – eu não podia parar e fui até mesmo punido e rechaçado quando tirei férias, há alguns anos, no dia nacional da visibilidade trans. Pasmem: fazia seis anos que eu não tirava férias e não podia estar na companhia da minha mãe, visto que o aniversário dela é dia 29 de janeiro, justamente no dia da visibilidade (irônico, né?), mas eu fui rechaçado por ter recusado fazer parte de um evento que eu geralmente era convidado a estar. Fui criticado por pessoa dos movimentos sociais que se dizem aliados. Que ousado eu fui em negar porque pretendia viajar! Que maneira curiosa de as pessoas se aliarem a nós, não acham? Mais uma amostra de que somos destituídos de nossa humanidade não somente enquanto pessoas trans, mas também responsabilizados por coisas as quais não são a nossa obrigação. É o mesmo que dizer que eu tenho que resolver a transfobia do mundo e que tem pessoa trans sofrendo; logo, se eu não participar ou não ser ativista/militante por um minuto, as coisas vão ruir e será culpa minha. Não sei quando passei a ser o Estado e toda a sua dimensão!

Somos limitados e devemos reconhecer isso.

Nem comentarei sobre os eventos em que nos convidam, não nos pagam, não nos dão um copo de água e acham um problema pagar o nosso transporte – detalhe: convidaram o doutor fulano da universidade de não sei onde, “especialista em trans”, cisgênero, visão deturpada e mítica de saúde trans, foi pago para palestrar no evento, inclusive suas passagens e estadia.

São as tantas ingratidões tanto entre os meus quanto entre os outros que foram me exaurindo. Não tenho grandes expectativas, apenas respeito a minha humanidade. Não é pedir muito.

Nesse ano, tive que aceitar e reconhecer o meu processo de luto de que acabou para mim, no momento, e que nessas condições não tenho mais como continuar fazendo esse trabalho. Preciso limitar ainda mais a forma como eu me engajo. Acho que “afunilar” é a designação mais adequada. Sem mais fazer parte das disputas políticas batendo na porta do gestor; sem mais dar palestras de graça e nunca ser empregado no mercado formal; sem mais participações em ongs, coletivos, instituições ou entidades de classe ou categoria profissional. Eu não preciso mais estar nas grandes coisas e nos grandes cenários. Posso fazer muito mais escrevendo, fazendo a minha pesquisa, meus atendimentos e dando as minhas aulas. Sendo eu por onde passo. Já é coisa o suficiente. Visibilidade é muito importante, mas não precisamos ser visíveis a todos ou a uma grande quantidade de pessoas. Toda trajetória é um testemunho: vai testemunhar quem tiver que testemunhar. É preciso reavaliar os valores e designar o que realmente é importante para a gente.

Posso soar contraditório, mas não gosto de ser visto. Não gosto de socializar, menos ainda de fazer parte dos jogos das relações politiqueiras das instituições. Não gosto de fazer parte dos cenários montados. Não sou o procurado para amizade, nem trabalho e nem qualquer outra coisa – sou chamado para apagar incêndios, para cumprir com papéis que não são meus e para ajudar pessoas que esporadicamente acionam o meu contato. É bem como se eu fosse um utensílio de cozinha pendurado na parede ou guardado na gaveta, à prontidão quando necessitado. Acontece que deixei de estar à disposição tem bastante tempo. Além disso, não sou necessário. Nada é necessário e nada é urgente nesse mundo. Não “tenho que” nada. Como sempre falo para as pessoas que atendo e para quem convive comigo, não tem nada mais revolucionário que ser inútil. O inútil é muito útil nos dias de hoje, superacelerados. Quero dispor de um tempo para escrever só sobre isso em uma próxima postagem nesse blog.


Não quero mais ser o militante, nem o ativista de outrora.

Não sou escritor, nem sei ser escritor. Seria pretensioso demais.

Não sou útil, bem pelo contrário. Deve ser por isso que o sistema me descarta.

Não sou acadêmico, nem sei ser pós-graduando, embora esteja terminando meu doutorado.

Será que sou psicólogo? Depende de quem vê.


Eu sou muitas outras coisas que o mundo material não contempla. De repente, vou ser ativista de blog, de escrita (mal-feita) de artigo científico. Não gosto de aparecer em vídeos e não quero lucrarr com esse espaço. Tem coisa que não se monetiza. Assim como o amanhã de Ailton Krenak, eu também não estou à venda.

Vivendo o incrível

Já tem quase 3 meses desde a minha jornada pela Escócia. A importância dessa aventura foi ficando cada vez mais transparente. A importânci...